SERTÃO NEGRO

um bestiário do sertão brasileiro

SERTÃO
Negro

O que o sertão enterrou não morreu.

Um encantado novo por noite — em vídeo, todo dia às 22h

desça a estrada
A Noiva de Ferro, égua colossal com um véu de noiva em chamas no lugar da cabeça, ao longe na estrada de terra; o Rezador ajoelhado e vendado em primeiro plano, de costas para quem olha.
Cap. 01 — A Noiva de Ferro «Se ouvir corrente na estrada, desce e ajoelha. Não olha pro fogo.»

O Códice

Um livro que ainda está sendo escrito

Há um homem que anda descalço pelas estradas de terra do sertão, vendado por escolha própria — arrancou a própria visão do mundo dos vivos pra parar de ver o que sempre esteve ali, esperando na beira da mata, no fundo do poço, na curva depois da encruzilhada.

Chamam ele de Rezador. Ele não tem outro nome, ou teve um e esqueceu de propósito. Toda noite ele encontra um encantado diferente — um horror antigo do folclore brasileiro, reimaginado como nunca foi contado — e escreve o nome dele na terra, pra lembrar que passou por ali, e pra avisar quem vier depois.

Cada vídeo é uma página desse Códice. Uma criatura. Uma regra de sobrevivência. Um preço pra quem não escuta.

O sertão não esqueceu o que enterrou. Ele só esperou a hora certa de contar.

Retrato do Rezador: homem vendado por um pano escuro, casaca preta puída, terço de contas pálidas.
O Rezador

O Bestiário

Quem já foi encontrado

Cada encantado tem uma cor própria, um som próprio e uma regra que — se seguida — talvez baste. O Códice segue crescendo; o que ainda não tem página está marcado abaixo.

O Rezadorvermelho-sangue

O Rezador

narrador — não é encantado, mas também não é mais só gente

Vendado por escolha própria. Terço de contas pálidas, casaca preta puída, sempre descalço. Amarra encantados escrevendo o nome deles na terra — e carrega mais história pessoal com alguns deles do que conta.

RegraNão é dele. É de quem escuta.
Cap. 01dourado-fogo

A Noiva de Ferro

nome popular: Mula-sem-cabeça

Égua colossal. Onde devia estar a cabeça, só um véu de noiva em chamas e uma coluna de fogo dourado subindo pro céu. Corre a estrada de terra toda quinta, à meia-noite.

RegraSe ouvir corrente na estrada, desce e ajoelha. Não olha pro fogo.
Cap. 02laranja-brasa

Pé-Torto

morador da mata fechada

Um menino de nove anos que não é menino. Pele rachada como casca de árvore, cabelo de brasa viva pingando faísca, pés virados pro lado errado. Assobia três notas e conta as respostas.

RegraNunca responda um assobio na mata. Ele conta quantas vezes você respondeu.
Cap. 03azul-pálido

O Contador

guardião da estrada dos doze postes

Um poste de madeira que virou corpo. Coberto de marcas de contagem entalhadas, olhos ocos de brilho fraco, dedos compridos que batem um ritmo silencioso contra o próprio peito.

RegraA estrada tem doze postes. Se contar e der treze, o décimo terceiro vai com você.
Cap. 04marrom-couro

Corpo-seco

o homem que a terra recusou

Pele seca colada direto no osso, roupa puída de trabalhador rural — mas os olhos ainda vivos, úmidos, desesperados. Não persegue. Só circula, sempre voltando pro mesmo ponto.

RegraNão pare o motor na encruzilhada.
Cap. 05cinza-pálido

O Que Bate

nunca totalmente na luz

Um vulto alto demais, envolto em pano escuro que parece sombra líquida. Dedos compridos demais pra serem mão de gente. Rosto liso, sem feição nenhuma. E ele sabe imitar a voz de quem você ama.

RegraGente bate duas vezes e chama. Três batidas sem voz não é gente.
Cap. 06verde-lodo

A Voz Submersa

nunca sai inteira da água

Pele escamada, marcas de rede antiga na pele. Por fora, a boca é perfeitamente humana. Por dentro, um segundo anel de dentes. Canta sem palavras — mas com a voz exata de quem você mais confia.

RegraNão responda quem te chama da água, nem se for a voz de quem você ama.
Cap. 07preto-onça

A Que Vira Bicho

anda sozinha nas noites de lua cheia

Uma onça de pelo preto absoluto, calma demais pra ser bicho selvagem. Os olhos não são de onça — são humanos, castanhos, impossivelmente familiares. Alguém que você conhece pode estar voltando pra casa.

RegraNão atire em bicho que anda sozinho perto de casa.
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O Diário

Episódios

Sete páginas do Códice, na ordem em que foram escritas. Cada uma é uma entidade, uma regra, e um preço pra quem não escutou.

01
Não Olhe pro Fogo
A Noiva de Ferro·02:00

Ele riu da lenda na quinta-feira. Na sexta acharam só o chapéu e a sela.

02
Não Assobie de Volta
Pé-Torto·02:00

Ele respondeu ao assobio três vezes achando que era passarinho. Faltavam só quatro.

03
Não Conte os Postes
O Contador·02:00

Ele contou os doze postes em voz alta pra provar que não tinha medo. Deu treze.

04
Não Pare o Motor na Encruzilhada
Corpo-seco·02:00

O pai não achou o filho na estrada. Achou a moto ligada e ninguém em cima.

05
Não Atenda na Terceira Batida
O Que Bate·02:00

Ela contou as batidas. Na terceira, a voz da própria mãe chamou seu nome do lado de fora.

06
Ela Cantou com a Voz da Minha Mãe
A Voz Submersa·02:00

Ele viu a mãe de costas no rio, de madrugada. Ela nunca tinha saído de casa.

07
Ele Matou a Onça. A Onça Tinha Aliança.
A Que Vira Bicho·02:00

Ele atirou na onça que rondava a casa. Achou a aliança dele presa na pata dela.


Regras de Sobrevivência

Se for andar sozinho essa noite

Sete regras. Sete jeitos diferentes de não virar página do Códice.

Se ouvir corrente na estrada, desce e ajoelha. Não olha pro fogo.

Noiva de Ferro

Nunca responda um assobio na mata.

Pé-Torto

Se contar e der treze, o décimo terceiro vai com você.

O Contador

Não pare o motor na encruzilhada.

Corpo-seco

Três batidas sem voz não é gente.

O Que Bate

Não responda quem te chama da água, nem se for a voz de quem você ama.

A Voz Submersa

Não atire em bicho que anda sozinho perto de casa.

A Que Vira Bicho